GESTOR DE IGREJA: QUE FUNÇÃO É ESSA?

 

Entrevista com Marco Aurélio de Alexandria Cruz 
Publicado em 04.04.2008

Marco Cruz é o atual gestor administrativo da Igreja Batista do Morumbi em São Paulo. Ele vem de uma experiência de 10 anos em uma indústria automobilística tendo atuado inclusive na Alemanha e na China. É graduado em Engenharia Mecânica pela Universidade Federal de Santa Catarina, pós-graduado no Programa de Educação Profissional para Executivos pela FIA em São Paulo e especialista em Planejamento e Gestão de Negócios pela FAE em Curitiba.

Nesta entrevista tentamos desmistificar uma função que tem ganho espaço nas igrejas, ou seja, a de gestor. Além de compartilhar quais são as suas responsabilidades e tarefas na igreja onde atua, Marco Cruz expõe o que pensa sobre as empresas seculares, seus princípios de gestão e a questão da parceria entre o gestor e o pastor da igreja. Tudo isso sem deixar de mencionar quais são os textos bíblicos que fornecem a base para muitas de suas respostas.

 

As pessoas se surpreendem quando você diz que é gestor de uma igreja? Que tipo de reações você encontra no meio evangélico e fora dele?

 

Marco - As pessoas ficam muito surpresas. Ainda há um mito dentro e fora da igreja evangélica de que as finanças e a administração da igreja são tarefas do pastor. A existência de um profissional, que não seja um pastor, ainda é vista com grande surpresa por todos. No meio evangélico as pessoas costumam usar expressões do tipo: “O que aconteceu com você, perdeu o emprego?” ou “Você é corajoso, hein!“ para tentar entender a ida para o trabalho de tempo integral na igreja. Por outro lado, fora do meio evangélico: “Você ficou louco, brigou com seu chefe na empresa?” ou “A sua história parece com aquela do monge do livro.”, fazendo alusão ao livro O Monge e o Executivo. Além disso, infelizmente, devido aos escândalos recentes em nosso meio, há comentários como: “Agora você vai ficar rico mesmo! Vai poder fazer a divisão do dinheiro dos fiéis”. Então explico, para surpresa de muitos, que fui para a igreja atendendo a um chamado específico de Deus para mim, para realização de uma missão de vida que é servir ao Senhor de tempo integral em uma igreja e que recebo salário desta instituição, sem participação financeira nos resultados.

 

O irmão trabalhou em uma indústria automobilística antes de assumir o cargo de gestor. Que lições administrativas do mundo secular lhe têm sido úteis para suas atividades na Igreja? 

Marco - A grande lição é a de que devemos sempre trabalhar com metas e objetivos claros e bem definidos, mas sem perder de vista que os planos vêm do Senhor conforme Provérbios 16:1. Há tantos desafios numa igreja, que, se não tivermos foco nas nossas atuações, correremos o risco de fazer muito e não alcançar nada. Penso que a igreja, como toda instituição sem fins lucrativos, tem que dar resultado, só que o resultado aqui são vidas transformadas através de Jesus Cristo. E a gestão da igreja tem que trabalhar e cooperar para que os resultados da igreja sejam alcançados: “Levar para o Caminho os que estão a caminho e torná-los verdadeiros seguidores de Jesus Cristo”.

 

Michael Zigarelli, um de nossos entrevistados, afirma que “o inimigo faz com que os líderes creiam que há uma incompatibilidade entre os princípios de gestão e o mundo espiritual.” Você tem a mesma percepção? Que caminho um líder pode seguir para distinguir que princípios são aplicáveis e quais não são?

Marco - Realmente o inimigo cria estas armadilhas. Eu, porém, acredito que não há uma incompatibilidade entre os princípios de gestão e o mundo espiritual. Liderança, planejamento, excelência, empreendedorismo e transparência são alguns dos valores e princípios de gestão que devem ser aplicados na igreja para que o mundo saiba que aqui dentro as coisas acontecem com qualidade. A grande diferença é que temos a palavra de Deus como guia na distinção dos princípios aplicáveis ou não. Como por exemplo: 1 Timóteo 3:5 e 5:17 na questão da liderança; Provérbios 15:22 e 16:1 e 20:18 na questão do planejamento; Colossenses 3:16,17 e Mateus 25:20 na questão da excelência; Atos 19:1 e 20:1,21 na questão do empreendedorismo e ainda Mateus 5:37 na questão da transparência.

 

Quais as principais competências que um gestor de igreja deve ter, ou seja, quais as habilidades, conhecimentos e atitudes que esta função exige?

Marco - É difícil enumerar as principais competências de um gestor de igreja. Dentre várias que poderia listar, além de formação específica e experiência na área de gestão ou afim, citarei algumas das que considero fundamentais: temor do Senhor e confiança Nele conforme Provérbios 1:7 e 3:5,6; conhecimento e apego à palavra de Deus conforme Tito 1:9, Provérbios 2:1-6 e Salmos 1:2; convicção de sua vocação e chamado conforme Efésios 4:11,12 e I Coríntios 12:28; integridade conforme Tito 2:7 e Salmos 7:8; ser cristão e não ser neófito conforme 1Timóteo 3:1-7; ter domínio próprio, paciência conforme Galátas 5:22,23; ter vida de oração conforme Lucas 6:12, e Romanos 12:12; a habidade para ensinar e trabalhar em equipe conforme Mateus 11:1 e 14:22; e por último, uma atitude conciliadora e pacificadora conforme Mateus 5:9 e Romanos 12:17,18. Estas são algumas das características que a bíblia cita como referência para os líderes da igreja, e que penso serem também necessárias para o gestor e que devem ser sempre buscadas por este.

 

Muitos de nossos leitores afirmam que suas igrejas são pequenas demais para ter um gestor. Você acredita que a função de gestor é inviável para igrejas de pequeno e médio porte? Que alternativas estes pastores teriam?

Marco - Devido à limitação orçamentária, em geral é difícil para as igrejas de pequeno e médio porte terem um gestor. A alternativa seria a busca de um profissional de tempo parcial ou voluntário que supriria esta necessidade até que a igreja tenha recursos suficientes para mantê-lo. Além disso, o trabalho do bom gestor certamente vai contribuir para a melhoria da situação financeira da igreja.

 

Que funções e responsabilidades estão diretamente ligadas à gestão da Igreja Batista do Morumbi? Como é o seu dia-a-dia? Qual o tamanho da sua equipe?

Marco - A gestão dos recursos financeiros e humanos em suporte ao cumprimento da visão de crescimento da igreja é a grande responsabilidade da área de gestão administrativa. O dia-a-dia da gestão envolve atividades tais como: controle do fluxo de caixa, pagamentos de contas, funcionários e fornecedores, gerenciamento em equipe de contribuições, compras, planejamento de curto, médio prazos, suporte e controle administrativo de entidades co-ligadas, segurança, limpeza, manutenção, organização de eventos, entre outras coisas. Além disso, o planejamento estratégico também faz parte da atividade da gestão. A equipe da área de gestão é constituída por um gestor que gerencia as atividades de um grupo formado pelo coordenador de administração e tesouraria, contador, coordenador de operações, coordenador de informática, motorista e secretária. Além disso, existe uma empresa externa que executa auditoria das contas da igreja e outra que presta consultoria contábil e fiscal.

 

Na prática, como o trabalho do gestor beneficia o ministério pastoral? Não há o risco de conflitos de hierarquia? A membresia consegue absorver bem o que é da competência de cada um?

Marco - A atividade do gestor visa liberar os pastores para o exercício especifico do ministério deles, sem terem que se preocupar diretamente com questões financeiras, contábeis, administrativas e jurídicas. Muitos pastores, que acumulam a atividade de gestão, se sentem frustrados por não conseguirem exercer esta atividade com excelência. Isto ocorre porque, na maioria dos casos, não foram preparados para isto, e acabam por não conseguirem exercer também o ministério de pastoreio para que foram chamados, devido ao acúmulo de atividades e funções. Há um risco de conflito que pode ser minimizado através de uma comunicação clara e diálogo franco e aberto. Nossas decisões são discutidas e debatidas também com os pastores e presbitério antes de serem implementadas. Além disso, na estrutura da nossa igreja existe um Conselho de Gestão, que é um grupo de profissionais voluntários que me assessoram na tomada de decisões administrativas e financeiras. Grande parte das decisões administrativas são feitas em grupo. A membresia da nossa igreja consegue diferenciar bem as atribuições e competências de cada um. O modelo de gestão que adotamos, passou por uma fase longa de implementação e ajustes, graças ao excelente trabalho do antigo gestor Renan Tavares dos Santos e também de Josué Campanhã e apoio do pastor sênior Lisânias Moura e sua equipe, bem como do antigo pastor sênior Ary Veloso. Tenho o privilégio de poder ter me integrado à Igreja Batista do Morumbi, uma igreja preciosa e que teve e tem homens de grande valor, visão e competência, que abriram caminho para o modelo de gestão atual.

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